A iminência do indizível (até que seja de fato, é melhor não
mencionar) tem feito coisas incríveis com essa sedenta, surrada e extasiada
Massa. Incluindo este escriba que vos fala. Não são poucos os ateus que
passaram a rezar para santos improváveis e acreditar em milagres nesse ano de
2021. Aliás, essa misteriosa conversão se deu de fato lá em maio de 2013, no
dia que uma Santa Perna Esquerda expurgou demônios e fantasmas que assombravam
as cadeiras do Horto. Mas esse ano, a religiosidade galista tem ganhado força e
não faltam novos candidatos a santos para serem elevados ao paraíso alvinegro.
Há
também os céticos, pessoas de ciência e consciência, que com os pés no chão e as
mentes livres do misticismo, não abrem mão de usar a mesma cueca, o mesmo
sutiã, a mesma bermuda, a mesma camisa. O mesmo chinelo com os pés trocados
enquanto sentam-se no mesmo lugar do sofá para assistir a cada jogo do
Campeonato Brasileiro. Há ainda os novos poetas. Gente que nunca se arriscou
nas palavras, mas sente-se, depois de cada jogo, inspirada e iluminada a ponto
de sem maiores constrangimentos rimar Keno com vento, aquele contra o qual
torcemos sempre que é necessário.
Merecem menção também os novos chorões.
Aqueles que durante anos foram conhecidos por serem impassíveis e manterem-se
firmes mesmo em situações de grande comoção, hoje derretem-se em lágrimas e
soluços se por acaso olharem no relógio precisamente às 13:13, ou se escutarem
o galo do vizinho cantar fora de hora... Passar em frente às obras da Arena MRV
então, é choro certo.
Mas esses fenômenos, dirão alguns desavisados, são comuns a
qualquer torcida. O argumento morre em si mesmo pois, desavisados que são, são
incapazes de compreender que a coletividade atleticana é muito mais do que uma
simples torcida. Há, no entanto, um novo aspecto que desafia análises
rasteiras. O Galo 2021 será conhecido como a maior turma de formandos em estatística
que se tem notícia.
Nunca antes na história deste país, tantas pessoas
abandonaram os traumas que a matemática do ensino médio lhes causou para
tornarem-se exímios estatísticos e analistas de probabilidades. Mal acaba a
partida do Galo ou dos oponentes e o já famoso site da UFMG tem seus servidores
sobrecarregados. Dotados das probabilidades meticulosamente calculadas pelos
acadêmicos de plantão, iniciam-se então as análises, as equações, as regras de
três, somas e subtrações. Projeções são feitas e desfeitas, datas para que
aconteça o que todos que queremos que aconteça são marcadas e desmarcadas. Resultados
são antecipados e jogados por terra. Planos são traçados e logo desfeitos.
A
matemática diz uma coisa. Nossas cabeças imploram para acreditar, afinal, são
números frios, exatos, precisos. Nossos corações, calejados que são, nos dizem
pra esperar. Pra nem mencionar o que pode ser que esteja por vir. Nossas almas
guardam na garganta um grito que esperneia para sair. Por isso, não se
assustem.
Quando os números forem definitivos (se é que serão...), Belo
Horizonte vai entrar em ebulição. E vai explodir nesse grito coletivo, nessa
lágrima compartilhada, nesse festejar conjunto que há quase 50 anos está
guardado. Dizem por aí que falta pouco. Mas parece uma eternidade. E haja matemática pra explicar isso...
Vamo que
vamo!
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
Haja matemática!
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