quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Haja matemática!

 A iminência do indizível (até que seja de fato, é melhor não mencionar) tem feito coisas incríveis com essa sedenta, surrada e extasiada Massa. Incluindo este escriba que vos fala. Não são poucos os ateus que passaram a rezar para santos improváveis e acreditar em milagres nesse ano de 2021. Aliás, essa misteriosa conversão se deu de fato lá em maio de 2013, no dia que uma Santa Perna Esquerda expurgou demônios e fantasmas que assombravam as cadeiras do Horto. Mas esse ano, a religiosidade galista tem ganhado força e não faltam novos candidatos a santos para serem elevados ao paraíso alvinegro.

Há também os céticos, pessoas de ciência e consciência, que com os pés no chão e as mentes livres do misticismo, não abrem mão de usar a mesma cueca, o mesmo sutiã, a mesma bermuda, a mesma camisa. O mesmo chinelo com os pés trocados enquanto sentam-se no mesmo lugar do sofá para assistir a cada jogo do Campeonato Brasileiro. Há ainda os novos poetas. Gente que nunca se arriscou nas palavras, mas sente-se, depois de cada jogo, inspirada e iluminada a ponto de sem maiores constrangimentos rimar Keno com vento, aquele contra o qual torcemos sempre que é necessário.

Merecem menção também os novos chorões. Aqueles que durante anos foram conhecidos por serem impassíveis e manterem-se firmes mesmo em situações de grande comoção, hoje derretem-se em lágrimas e soluços se por acaso olharem no relógio precisamente às 13:13, ou se escutarem o galo do vizinho cantar fora de hora... Passar em frente às obras da Arena MRV então, é choro certo.

Mas esses fenômenos, dirão alguns desavisados, são comuns a qualquer torcida. O argumento morre em si mesmo pois, desavisados que são, são incapazes de compreender que a coletividade atleticana é muito mais do que uma simples torcida. Há, no entanto, um novo aspecto que desafia análises rasteiras. O Galo 2021 será conhecido como a maior turma de formandos em estatística que se tem notícia.

Nunca antes na história deste país, tantas pessoas abandonaram os traumas que a matemática do ensino médio lhes causou para tornarem-se exímios estatísticos e analistas de probabilidades. Mal acaba a partida do Galo ou dos oponentes e o já famoso site da UFMG tem seus servidores sobrecarregados. Dotados das probabilidades meticulosamente calculadas pelos acadêmicos de plantão, iniciam-se então as análises, as equações, as regras de três, somas e subtrações. Projeções são feitas e desfeitas, datas para que aconteça o que todos que queremos que aconteça são marcadas e desmarcadas. Resultados são antecipados e jogados por terra. Planos são traçados e logo desfeitos.

A matemática diz uma coisa. Nossas cabeças imploram para acreditar, afinal, são números frios, exatos, precisos. Nossos corações, calejados que são, nos dizem pra esperar. Pra nem mencionar o que pode ser que esteja por vir. Nossas almas guardam na garganta um grito que esperneia para sair. Por isso, não se assustem.

Quando os números forem definitivos (se é que serão...), Belo Horizonte vai entrar em ebulição. E vai explodir nesse grito coletivo, nessa lágrima compartilhada, nesse festejar conjunto que há quase 50 anos está guardado. Dizem por aí que falta pouco. Mas parece uma eternidade. E haja matemática pra explicar isso...

Vamo que vamo!